terça-feira, 25 de maio de 2010

Sentimento


            Lembra quando você era inocente, sentimento era presente e fácil de expressar? É, o peso do que chamamos de idade, essa característica que vem carregada de experiências e traumas, nos faz repensar em cada palavra que ousamos escrever ou proferir.
            Ah, voltemos àquela época simples: nada de interpretações e pensamentos para os reais significados de tudo que se expôs. Nada, nada mesmo, de analisar sobre a sinceridade, a verdade e suas consequências: você só quer sentir.
Volte a ser aquele que simplesmente crê: garotinho sem receios, que tem fé naqueles afagos tímidos que recebe ao envolvê-la.
E o menino tenta tapar sua razão, liberar seus instintos, mas percebe que o tempo é uma curva, não um retrocesso.
Então ele, não mais tão jovem agora, se expõe novamente e as palavras emitidas se tornam robustas, carregadas com aquela mistura quase esquecida de euforia e medo.

sexta-feira, 26 de março de 2010

[Caneta Bic em um papel avulso]

"Desculpa a normalidade dos últimos dias. Mas você sabe que eu te amo e me perdoa por isso!"

--

[Divagações sobre a tinta]

- Sabe, cara, amar, perdão e normalidade realmente não se mesclam com ela. Não parece ela, sabe?
- Então, é que o perdão veio de você, não dela.
- ...
- Não que ela não perdoe, só que, você sabe como ela é...
- Tá, não precisa explicar mais, acho que entendi.
- É que ela é meio impulsiva. Na verdade ela é muito diferente de você e isso...
- Eu já disse que não precisa explicar.
- Tá bom, tá bom, mas não vai fazer merda, ok?
- Fazer merda? Do que você tá falando?
- Você sabe.
- Eu acho que sei... mas é foda, cara... é foda.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Quase plágio...

A tanto falou-se de ciúmes que quase não admiti o meu. Sei que isto pesou em meu julgamento mas estava lá somente para dedicar meu tempo a você e - talvez por isto minha fúria - pensei ser merecedor de um pouco de carinho.

No final, descobre-se que não se pode cobrar este tipo de coisa e acabei descobrindo-me fútil quando a Ira dominou - descobrir que este pecado capital não passa de um canino e suas receptivas lambidas nos dedos dói e agrada.

Esperei - com uma euforia adolescente, devo admitir - uma ligação que viria com pedidos de explicações - mas o telefone está dormindo e não parece ter a intenção de reclamar agora - e pior ainda foi saber que o sushi que tanto me agrada me aguarda, mas sem a companhia da gueixa que tanto me dediquei e tentei ser merecedor de carinho.

Parabéns por me cativar, menina do caralho. Sinto - é possível que infelizmente, não sei afirmar agora - que esta presença terá a dificuldade de se apagar de minha pessoa tanto quanto esta caveira incrustada da tua pele.

sexta-feira, 19 de março de 2010

E agora já faz tanto tempo


     Tanto tempo que não vejo aqueles rostos que me fazem sorrir.
     Os olhos que transmitem coisas boas.
     Era tudo tão diferente. Tão pequeno. Tão grande.
     Pensando daquele ponto em diante, o tempo passou voando. Uma busca constante por algo que eu nem sei o que é.
     Pensando em tudo que veio antes, já faz tanto tempo... O passado, feito de lembranças: talvez da busca por alguma coisa que você já conseguiu num passado recente... talvez um completo desacerto. Um não-você.
     E hoje os dias me atropelam. Não pertenço a este lugar. Acho que nunca pertenci a lugar algum.
     Aprendi a conviver com sentimentos que não queria. Esmaguei um pouco mais do que estava aqui dentro.
     Como eu queria. Ah, como eu queria alguns vestígios reais do passado. Olhar, tocar, sentir. Que falta me faz. Ninguém mais sabe.
     Nesses momentos, nessas frações de segundos que me ponho a pensar, pego a caixinha de recordações certa de que me lembro de tudo. E tomo um susto grande quando percebo que cada vez esqueço mais. Os olhares desviam, as mãos lentamente se soltam, o sorriso enfraquece - em câmera lenta, muito lenta. Os antigos acontecimentos dão lugar aos mais recentes. A memória economiza palavras, e tudo se resume a pequenos detalhes. Os únicos detalhes.
     Só me restam as cartas, as fotos, os minúsculos bilhetes e, acima de tudo, a certeza de que tudo valeu a pena. O coração apertado não engana. É desprovido de memória, isso é verdade. Mas de maneira jamais explicada nos dá a certeza de tudo que um dia foi especial.
     E sempre será.

terça-feira, 16 de março de 2010

Teoria do Alison

"Oh, it’s so funny to be seeing you after so long, girl. 
And with the way you look 
I understand that you are not impressed."

Essas são as três primeiras frases de Alison, canção de Elvis Costelo, clássico absoluto. E é a canção que empresta som, palavras e sentimento para esse texto, ou melhor, teoria. Essas frases já são uma pista mas o que vem a ser a Teoria de Alison? Bem, a teoria de Alison é uma equação muito simples:

{É só juntar um cara legal, uma garota bacana, platonismo à vontade, alguns itens da Lei de Murphy, e, às vezes, um relacionamento quase perfeito acontece. Quase perfeito. Aí é só bater no liqüidificador e beber o resto da vida entre silêncios e sonhos}

Alisons são aquelas garotas que marcam a vida da gente e que a gente não consegue esquecer com o tempo, ao contrário, elas nos tomam cada vez mais, como se só existissem elas no mundo. Sei que não existem apenas elas, mas isso é inexplicável, acontece. E acontece a ponto de as tornarem as maiores adversárias de novos relacionamentos, embora nem estejam mais ali, talvez apenas como fantasmas, mas nós acabamos sempre as querendo. É diferente de flertes corriqueiros e inconseqüentes e é sacrifício até manter a amizade depois que a história chega ao fim, ou melhor, quase início.

Ela pode ser qualquer garota, como a vizinha, uma colega de classe, a amiga de um conhecido, a irmã de uma amiga, a namorada do melhor amigo, uma prima, qualquer uma. Parece piada, mas acredite, não é. Acontece. Quem tem uma Alison tem também uma porção de histórias tragicômicas para contar. Eu mesmo tenho um monte e daria para escrever um livro só contando minhas mancadas.

Cada um deve ter a sua Alison. Eu tenho a minha, bonita, inteligente, frases iniciadas por um e finalizada por outro, quase beijos, e por fim, silêncios. Tá, ela me envia emails vez em quando. Mas já não está sozinha, o que a torna ainda mais impossível. Mas é a minha Alison, vou fazer o que? Não escolhi. Ela me apareceu do nada, numa tarde de julho a quase 800 km da  minha casa (acho que fui eu que apareci) e, bem, ela vai se casar em setembro e eu não quero ser muito sentimental (como canta Costelo) mas a vida segue, cada um na sua, e geralmente Alisons nos trazem tristeza. É a sina. Eu só sei que ela não é minha.

Isso é o fim ? Não, como eu disse, a vida segue. Apenas segue mais arrastada. Isso tudo não impede da gente encontrar alguém e se apaixonar e tal. Eu já me apaixonei mas não foi lá grande coisa, nem por culpa da paixão mas por culpa da Alison. Mesmo assim acredito que a minha garota está andando por aí e qualquer dia eu a encontro. Acredito. Mas Alison é 
Alison, a gente bebe a vida inteira dessa chuva. E desde então parece que tem chovido sempre. Sempre.  
 
"Alison, my aim is true. My aim is true."

Por  Miguel F. Luna.
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Masoquismo emocional, eu sei. Mas esta teoria me marcou.

domingo, 7 de março de 2010

Antiga Sinceridade

"Também não vou desejar 'que de tudo certo', porque não vai ser assim, você sabe que vão haver dificuldades e o que você deve fazer é vencer, lutar e aprender com essa bela oportunidade que você terá. Aqui que estou sendo 'conselheiro' demais, queria realmente falar que tudo vai dar certo e tal, mas sabe como eu sou, né?"

Sinceridade, é foda.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Treze

     O fundo da sala-de-aula era território dele. Não que fosse um aluno arruaceiro ou coisa parecida. Mas sempre preferiu sentar nas últimas cadeiras porque era lá que estavam as pessoas que ele considerava divertidas, além de ser um ótimo lugar para ficar rabiscando formações imaginárias de uma banda perfeita sem que o professor viesse encher o saco. Mas aquele dia não conseguia se concentrar, não quando aquele cheiro de sabonete de bebê apareceu ao lado e puxou conversa.

- Por que esta cara de assustado?, ela perguntou.

     Era verdade: ele estava assustado. Afinal, desde que eram colegas ela nunca havia sentado lá no fundão.

- É que to acostumado a olhar pro lado e ver a cara de um amigo.
- E o que é melhor? Ver a cara de um garoto ou a minha?
- É que é estranho...
- Você não respondeu minha pergunta.

     Ficou alguns segundos rabiscando numa folha de papel, sem saber o que dizer. Sentia aquele frio na barriga, daqueles que não tem mais volta. Mas, neste caso, a sensação era 99% boa, ele achava.  Afinal de contas, não fora ele que havia tomado a iniciativa. Pela primeira vez na vida, poderia dizer que uma menina tinha dado em cima dele.
Só que, óbvio, sempre havia aquele maldito medo estúpido. E, lógico, por causa dele, estar com um friozinho na barriga por Maria Fernanda não era 100% legal.

- Você não respondeu minha pergunta, ela repetiu.
- Só ia falar que é estranho ver você aqui no fundo da sala.
- E...
- E respondendo sua pergunta, é estranho, mas é muito melhor ver você aqui do que qualquer pessoa. Principalmente o metaleiro do meu amigo.
- Tadinho dele... Vocês parecem ser tão amigos...
- E somos agora. Quero dizer, há uns dois meses que a gente tem se falado mais.
- Nunca falei com ele.
- Ué, você nunca tinha falado comigo.
- Mas você também nunca falou comigo.
- É que...
- É que a turma do fundão não se mistura com o pessoal que fica grudado no quadro-negro, né?
- Não era isso que queria dizer.
- Mas você acha isso.
- Você também acha isso, Maria.
- Maria? Se eu acho mesmo que a gente não deve se misturar, o que é que tô fazendo aqui?

     Pela segunda vez naquela manhã, ela havia deixado o garoto sem palavras. Ele ficou olhando para aqueles cinco nomes na última folha do meu caderno. Eram cinco caras, integrantes de cinco de suas bandas prediletas, cinco músicos que provavelmente nunca iriam tocar juntos. Eles se misturarem parecia tão improvável quanto ele e ela se misturarem, mas, em ambos os casos, só de imaginar uma possibilidade já fazia o jovem sorrir.
    
     Mas antes que ele pudesse tomar atitude, o celular da garota tocou e uma Bossa Nova começou a tocar na sala. Desesperada e tentando tirar o celular de cima da mesa, aquele telefone voou das mãos dela e caiu no chão.
     Ainda atônito com tudo que estava acontecendo, ele ficou a observar aquele celular novinho rodopiar por sua mesa e na de Maria Fernanda. Quando percebeu, ela estava ajoelhada no chão, com o celular nas mãos e seus olhos fixos nos meus. Não sabe exatamente o que aconteceu com ele, mas, num impulso, jogou seu corpo sobre o dela e, enquanto toda sala-de-aula ouvia Caetano Veloso cantando Garota de Ipanema e tentava entender de onde via aquele barulho de cadeiras, ele a beijou.

- Vamos nos misturar, ele falou ao seu ouvido.
- Nós vamos é ser expulsos de sala, ela disse.

     E foram. Sobre gritos e aplausos de toda turma, saíram de mãos dadas da sala de aula. E, quando fecharam a porta, sorriram um para o outro com aquela certeza de que já não existia território dele que não fosse dela e vice-versa.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Onze

     Não havia nada pior: além de perder a namorada, ele era chamado de corno. Tentou de todas as formas esconder que ela havia aparecido com outro na sua festa de aniversário, mas você sabe como é o colégio. Logo, este era o assunto de todas as conversas nos corredores, na biblioteca, no bar, nos bilhetes na sala de aula. Definitivamente, ele era o corno do ano.

     Durante duas semanas, não teve vontade de fazer nada. Passava boa parte do tempo matando aula no terraço do colégio, fodendo com suas notas e seus pulmões. Foram naquelas duas semanas, ele desconfiou depois, que começou a ficar viciado para valer em cigarros.

     Talvez fosse o excesso de Legião no walkman, mas tinha certeza que nunca nenhum homem havia sofrido tanto por uma mulher como ele por ela.

     Por causa daquele egocentrismo típico dos jovens, acreditou que ninguém jamais sofreria como ele. E então, na terceira quarta-feira, e segunda aula de literatura que matou, ouviu alguém se aproximar do terraço.

     Pensou que fosse seu amigo, única pessoa que realmente conhecia seu esconderijo, mas sentiu um perfume de sabonete de bebê. E definitivamente seu amigo não fazia o tipo de quem usava sabonete de bebê.

- Poxa, você tá mal mesmo - ouviu uma voz conhecida falar.

     Sentado no cimento frio, o garoto levantou a cabeça e olhou para cima. Era uma colega de aula. Ficou surpreso por alguns segundos. Ele e Maria Fernanda eram de grupos diferentes. Ele mal lembrava se este era realmente o nome dela. Mas lembrava que enquanto ele fazia o estilo roqueiro, ela era toda certinha e andava com os playboys fãs de raves.

- Oi, Maria - disse sem se importar se este era seu nome.
- Engraçado, ninguém me chama de Maria.
- Hum... sei.
- Posso sentar?
- Hã? Sentar? Pode, claro.

     Ela jogou um livro no chão e sentou sobre ele. Provavelmente para não sujar seus jeans de grife.

- Tá surpreso de me ver aqui, né?
- Não. Quero dizer, não sei. Talvez.
- Eu também tô.
- Tá o quê?
- Surpresa.
- Ah, tá.
- Tudo bem de eu ficar aqui com você?
- Você tá matando aula de literatura.
- Não tem problema. Acho que não vai ter nada de tão importante assim. Além do mais, já tô de saco cheio de Machado de Assis.
- Machado de Assis é o maior escritor brasileiro.
- Pode ser. Mas eu acho que a gente é muito jovem e imaturo pra ler o cara.
- É. Talvez você tenha razão.

     Ele não poderia acreditar. Eles estavam conversando. Maria e ele eram colegas de aula desde a terceira série e, desde então, haviam trocado no máximo vinte palavras.

- Mas não vim pra falar de literatura.
- Não?
- Vim falar com você…
- Comigo?
- Sim. É que…
- Quer um cigarro?
- Não fumo.
- Importa se eu fumar?
- Mais ou menos… Mas se quiser, tudo bem.
- Valeu. Prometo que não jogo fumaça pro seu lado.
- Obrigada.
- Então… Você veio falar comigo?
- Vim. É que, hã, tava pensando em tudo que aconteceu com você. Já ouvi todas as versões: que você mereceu, que ela foi filha da puta, que você só tá se fazendo de deprimido. Ouvi tudo isso e nada me importa. Não quero fazer julgamentos, nem nada. Só acho que este é um bom momento pra dizer o que sinto.
- E o que você sente?
- Você não sabe, mas desde a quinta série passo boa parte do meu tempo…
- Continua…
- Olha, foi difícil vir até aqui. Tive que juntar toda coragem que tenho e que não tenho. Por isso, você não vai poder me apressar, ok?
- Ok. Desculpa Maria.
- Tudo bem, mas me chame de Fernanda, ok? Vamos lá: passei boa parte do meu tempo pensando em você.
- Em mim?
- É, em você. Desde a quinta série, quando você se ofereceu pra me levar de ônibus até minha casa porque meu pai não podia me buscar, desde aquele dia constrangedor, não paro de pensar em você.
- Putz. Tinha me esquecido disso. Você nunca tinha andado de ônibus sozinha e tava morrendo de medo! Que absurdo!
- Sei que era um absurdo, que eu era uma filhinha de papai medrosa, mas aquilo foi lindo. A gente não falou nada no caminho inteiro e, mesmo assim, só consegui pensar em você. Sei que nós somos diferentes, sei que você me acha uma mimada sem graça, mas não posso te ver assim arrasado, perdendo as aulas…

     Estava pasmo com tudo aquilo. Mas ainda se achava o maior sofredor de todos os tempos.

- Não sei o que você tá querendo dizer, Fernanda. Só sei que não posso fazer nada. Tô assim fodido e pronto. Fui um namorado insensível, mereci aqueles chifres. É isso. Sou corno. E não há nada pior do que isso. Ser corno e saber que mereço ser chamado assim.
- Claro que há coisa pior.
- O quê por exemplo?
- Ser apaixonada por alguém e não ter coragem de dizer. Ser apaixonada por alguém que te acha fútil.
- Você fala assim porque nunca viu alguém que você gosta com outro.
- Vi sim.
- Quem?
- Você, seu estúpido.
- Mas não sou seu namorado.
- Eu correria o risco de ser traída se você quisesse ficar comigo.

     Ela disse e depois, com uma rapidez de quem era campeã de handball no colégio, pegou seu livro e desapareceu do terraço.
  
     Ficou um bom tempo ali, olhando para onde Maria Fernanda estava sentada, sem saber o que fazer. De repente, deu um frio na barriga e começou a sentir um medo, o mesmo e velho medo estúpido que tanto conhecia, aquele medo de sempre, o medo de estar novamente se apaixonando e não saber o que fazer com isso.

     E, quando percebeu, já havia descido para a sala de aula. No meio do caminho, ouviu algumas pessoas chamando-o de corno. Não deu a mínima. Afinal de contas, ele já sabia: sim, havia coisa pior no mundo.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Vergonha

Era algo assim que sentia naquela hora que deveria estar na cama mas estava lá olhando pra ela e pensando mil e uma desculpas para encostar em seu corpo, rosto ou dizer algumas palavras em seu ouvido e também foi após isto, naquela hora tola - e inocente - que acreditei que ela estava acariciando minha mão e fiquei contente acabando por abrir um sorriso que logo se transformou em decepção - acho que concordam que confundir uma mão com a bolsa tira-colo não é algo agradável, né?

[ Noite curta e curta a noite. Sem arrependimentos. ]

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Incompleto

[...]


- Aconteceu alguma coisa?, ela perguntou.
- Como assim?
- Você não para de me olhar.
- Sei lá. Só estava pensando.
- Pensando no que?
- Nos seu tênis.
- Nos meus tênis?
- É. Os seus coturnos.
- E o que é que tem o meu coturno?
- Sei lá. É que você tem estilo, entende?
- Obrigada. Você também tem.
- Que nada. Eu corto meu cabelo curtinho e uso tênis Nike. Isto por acaso é estilo?
- Pelo menos você tem opinião. Já é algo, né?
- Mas você é diferente. Eu sou uma cópia de xerox vagabunda. E você é original.
-  Ah, cala boca.
- É que em você tudo faz sentido.
- Para de falar bobagem.
- Não é bobagem.
- Minha casa tá vazia hoje a tarde, passa lá?
- Não é bobagem.
- Passa ou não passa?

[.. To be continued...]

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Dois Tempos

Entre as fingida raiva, a falta de compromisso e toda essa falsa ofensa fico eu sem entender bem até que ponto existe brincadeira ou se este descompromissado não existe - na verdade o vínculo é forte e faz-se necessário uma explicação - e o cômico é que isto me afeta com uma confusão tamanha que pelo menos quando bebo - talvez por ser fraco para bebida - deixo de entender até que ponto é piada verdadeira ou somente uma mentira.

No final das contas, faz-se necessário a explicação. E é nesta parte que não se aguenta e corre-se para clicar rapidamente naquele xizinho que tanto nos enfurece quando o alvo somos nós. Este é o primeiro tempo, mas parece um fim, não é mesmo?

Mas é logo após isto que a vozinha que mal dá para ouvir te alegra mesmo vinda de longe, te deixando meio sem jeito por tantos julgamentos sem razão - pois sabemos como todos nós sempre consideramos a pior das saídas a verdadeira - e depois de madrugada acordada e mesma quantidade de palavras quanto de silêncio, acaba-se a vozinha mas você sabe que a reencontrará só que talvez menos desgastada e isto é bom - o reencontro, não o desgaste - mas você não sabe até quando toda essa alegria de reencontro durará - e para ser sincero, você não se importa, o momento é bacana, o conteúdo é legal - e você tenta aproveitar e deixa-se levar por perceber como muitas vezes criar teorias para os sentimentos é mais que desnecessário: é um erro.



Entre o nada e o infinito.
O fim de algo grande e o começo de algo maior ainda.
Ou talvez uma simples pausa.
(Não, nada de pausa, fim ou começo).

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Epifania

- Nós somos esses seres complexos, cheios de manias, de traumas, de crenças. Sujos, eu diria. Não reagimos mais espontaneamente. É como se tudo estivesse predeterminado e nós vivêssemos pelo segundo seguinte. Demos o controle da nossa vida a mãos alheias e nos livramos de todas responsabilidades. Escolhemos ser vítimas.
- Vítimas?
- Sim. Vítimas da própria vida. Que sentido faz isso? Existe um mundo de oportunidades, o seu mundo. Bloqueamos a criatividade, matamos o instinto. Por puro e simples medo. Medo de falhar. Medo de opiniões, dos dedos que apontam em sua direção, dos olhares. Medo de conhecer nossos limites, medo de elogios.
- Ninguém teme elogios.
- É tudo que tememos. Não importa o quão ruim você é, mas o quão bom você não é. Chega de parâmetros, de comparação. Ninguém se importa com isso.
- É verdade. Tudo que fazemos na vida é uma tentativa de ser mais amado.
- Amor não preenche vazios. Amor excede.

[Pausa]

- Temos essa mania de negatividade. Pensamos demais, calculamos demais. Determinamos os nossos sentimentos. O caminho sutil esta dentro de todos nós, mal interpretado, ignorado. Escolhemos o difícil.
- Não estou me sentindo bem.
- São os efeitos colaterais da vida que escolheu. Eu me sinto libertado. Eu queria lhe dizer... comece a fazer na vida o que deseja fazer, sem nenhum conselho.
- Nem mesmo seu?
- Nem mesmo meu. As suas respostas, todas as suas respostas, estarão nas tentativas. Um dia não precisará mais tentar.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Interessante...

O espanto que me envolve quando percebo que sou, como qualquer um é, descartável...

Me causa um pouco de medo, mas não surpresa.

[ Pare de falar merda, vá se divertir. ]

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Aprendizado 2

     Sempre achei difícil me contentar com algo que não fosse espetacular. Ou sempre achei difícil aceitar essa idéia. Nada de 'mais ou menos' ou normalidade. Sempre busquei os extremos. Felicidade intensa sem um minuto de dúvidas ou medos. O 'não-consigo-viver-sem'tipo de sentimento.
     Previsível ou não, quase sempre quebrei a cara. A realidade nunca superava a perfeição das minhas idéias e eu me livrava de sentimentos com incrível facilidade. Simplesmente por achar que eles não existiam.
     Não sou uma constante. Estou em eterno processo de mudança e minha cabeça não aceitaria nada que fosse estático. Nada que beirasse a mesmice.
     Das coisas que aprendi, talvez uma das mais importantes foi dar valor ao 'simplesmente bom'. Saber reconhecer quando algo está legal o suficiente no presente e deixar as coisas como elas estão.
     Muita calma. Não estou dizendo que passei a me contentar com pouco. Simplesmente parei de deixar as minhas idealizações esconderem a realidade, o agora. Consegui parar de questionar o futuro. Aprendi a reconhecer os momentos agradáveis que fazem a minha vida mais leve. Sentir, mais do que pensar. Entorpecer-me com a calma que isso me traz.

Soa perfeito, não?

Diria que longe das minhas antigas idealizações, mas é o fio que me segura nos momentos difíceis. Quando nada, nada consegue ser melhor do que 'bom o suficiente'.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Vinte e dois anos depois...

Do "amor real" que vc e outras pessoas me ensinam, já amo um tanto. Quando mandar um "te amo" ou um "com amor", entenda que é desse... 


É claro que o "incondicional" ainda pesa muito, mas por que nos incomodar com isso?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Parceira - Final

Sincero arrependimento de ter entregado você por uma brincadeira tola num momento de lapso será? foi estranho esquecer tão facilmente assim de algo que me foi pedido diretamente, talvez seja o momento de saber que nem tudo é brincadeira afinal existem coisas como essas que são chatas quando acontecem; pior ainda é que este post não resolverá nada e mesmo que eu tente ser cômico com a situação não existe piada que resolva infelizmente.

[sou péssimo nesse estilo, mas de bonito este post não tem nada]

--


e o amor?

o próprio

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Sonhei (Eu iria mudar, mas agora vai assim: como escrevi ontem)

     Corria, corria, corria. Atrás de uma bicicleta: um cachorro persegue sua roda. Logo começou o cansaço, como isto era possível para alguém que tanto lutara para chegar até ali? 
     Continuei a maratona atrás do círculo de látex. Motivos diversos para fazer aquelas patas bambas continuarem a se movimentar. Mas a marcha mudou, a velocidade aumentou e, como era de se esperar, fiquei a uivar depois de um esforço que englobava alguma razão, uma considerável vontade e bastante fracasso.
     Foi desta maneira, não através de um atropelamento, que percebi que os cães espertos apenas ladram. Felizes são estes, por suas pernas não ficam amolecidas após uma dura e (quase) sempre fracassada empreitada contra as marchas cruéis e diversas de uma bicicleta e seu maldito cestinho.
     Mesmo assim, novamente preparo-me para correr. Desta vez tendo objetivo é bem mais carnal, se é que me entendem.
    Afinal, nunca vi cachorro se alimentar de borracha. Já ossos já vi muitos não largarem. Apesar de saber que posso mastigá-lo, descobri que não tenho posse desse tutano que tanto desejo. Gostaria ser um homem, as vezes.

domingo, 7 de fevereiro de 2010


Sublime alma que me persegue tanto e incansavelmente
Já não me perturbas
Contra o frio de tua segurança já me protegi
A sua razão não mais tento decifrar
Faz parte de mim, você.

Alma contente que tanto vi
Não me importa que ninguém te entenda
Os seus demônios, são os meus
A sua existência, divina.

Me trouxeste insegurança
Coração apertado, muitas lembranças
Risadas desesperadas
Desconforto constante.

Tanto te evitei, abismo
O céu é ilusão, o chão o meu lugar
Caindo em câmera lenta, penso em ti

Bonita Tristeza, não mais te reprimo
Faz parte de mim, você.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Carta de despedida...

Bem, vamos por partes.
Me desculpe pelo "triste desfecho", como você mesmo falou, dessa nossa quase história...
Te achei muito gente boa, e não acho que você tenha errado em nada não, afinal o problema não é com você, é comigo mesma.
Preciso de um tempo pra mim agora, mesmo porque é tudo muito recente e eu te falei: terminei faz duas semanas.

E o que fez talvez eu ter atitudes infantis, vamos assim dizer, foi o fato de saber que você trabalha lá, onde também trabalha meu ex-namorado.
Como a poeira ainda não baixou, fiquei me sentindo muito mal.
Não espero que você compreenda tudo isso. Me desculpe. Tudo de bom para você também, apesar desses contratempos, foi muito bom te conhecer. Até um dia, quem sabe.

Beijos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Um dia depois...

...aquele aroma, que tanto me envolveu naquela madrugada, permanece no lençol daquele colchão jogado ao chão.

Sono e cheiro. Contradição nesta vontade de-mais.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Sete

     Sete. Sete horas para fazer o que desse na telha. Se ouve um tempo que sentiram ser um do outro, este tempo foi aquele infinito e, também, curto espaço de tempo que começava com a saída do colégio e a chegada de seus pais em casa.

     A maioria de seus colegas passava as tardes entre o físico e o cultural. Ele não. Talvez fosse preguiça ou, quem sabe, talvez seus pais não vissem motivo para investir em seu futuro, mas as tardes daquele jovem não eram feitas de exercício e idiomas. Não exatamente.

     Ele tinha discos e uma namorada. E, não sei se você sabe, uma boa coleção de discos e uma namorada é possível aprender muito bem inglês e fazer bastante exercícios em sete horas.

- O que quer dizer ‘thorn’?
- Sei lá, procura no dicionário.
- Peraí um pouquinho...

     E, assim, ela afastava seus coturnos e caminhava até a estante, tentando não escorregar com suas meias brancas ao deslizar pelo chão do quarto. Ela folheou rapidamente as folhas do dicionário e, num sorriso que só não o derrubava porque ele já estava deitado ao lado de seu aparelho de som, dizia o significado da palavra.

- Tem certeza que é espinho?
- Tá aqui no dicionário.
- Porra. O que esse cara quer dizer ‘o menino com o espinho’?
- Sei lá. Presta atenção no resto da letra.

     E assim passavam as tardes: discos, traduções e tentando entender significados desconhecidos para quem a pouco tempo brincava de Lego. Ao vê-la tão vestida e desnuda sem seus coturnos, era suficiente para seus hormônios trabalharem. Era hora dos exercícios. Beijava sua boca daquele jeito desesperado que só os apaixonados sabem beijar e, lógico, começava a exploração por baixo da camiseta. Como seus amigos que, bem provavelmente, estavam em uma piscina, ele mergulhava na idéia de tocar e descobrir cada vez mais o corpo dela.
     Mas ambos sabiam que havia um limite.

- Pára.
- Só mais um pouquinho.
- Teus pais já devem estar chegando.
- Droga.
- Não fica assim. Você sabe que vai acontecer.
- Quando?
- Não sei.
- Você nunca sabe.
- Ah, deixa de fazer manha.
- Tudo bem, vamos ouvir esse novo CD que eu comprei?

     Assim, mais uma tarde chegava ao fim. Ele levava sua garota até o ponto de ônibus e voltava para sua casa, em que sua mãe já preparava o jantar. As noites não eram o melhor momento do dia. Mas era só pensar que o amanhã estava acompanhado de uma tarde que tudo ficava bem novamente.

     Afinal, tem vezes que tudo que você precisa para ser feliz é uma boa música, uma garota de meias brancas e sete horas para aproveitar tudo isso.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Balada

     Lá estava ela, loira, linda, menina e com seu vestido de bolinhas que deixava os idiotas que passavam tontos. Ela olhou para sua direção um par de vezes. Ele ficou lá, observando aquela entidade, conjecturando diversas frases para proferir que, no final das contas, não foram ditas.


[ Maldita falta de jeito. Mas é como o jovem concluiu com seu melhor amigo: 'não somos garotos de balada'. ]

Suspiros.

Apesar disto, a festa foi do caralho.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Mudança de Paradigma

Sete. Sete horas para fazer o que desse na telha. Se ouve um tempo que senti que foi meu e que vivi como teu, este tempo foi aquele infinito e, também, curto espaço de tempo entre meu labor e as férias que agora vigoram.

As palavras simples com uma ironia aliada a uma ótima desenvoltura emocional deveriam ser aquilo: ironia e desenvoltura emocional. Tudo, tudo estava ali para tornar aquele meu infinito em um passado repleto de histórias para contar (e escrever).

Aquele tempo, no fim, não foi o melhor momento que vivi, eu sempre soube disto. Mas perceber que aquilo  poderia novamente acontecer amanhã, mês que vêm ou no 'talvez um dia' me deixava tranquilo. Percebi que viver de supostos 'melhores momentos' era errado. Agora era diferente: passado não era mais vivido para ser o melhor. Caminho hoje apenas sabendo que meus momentos poderão ser, mais uma vez, infinitos. Certo estava Vinícius e seu mais famoso soneto.

Afinal, tem vezes que tudo que você precisa para ser feliz é um bom filme, uma garota de meias brancas e sete horas para aproveitar tudo isso.

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Texto escrito em uma tarde chuvosa em belo litoral turístico. Sem revisões e, com toda certeza, com muitos erros. Pouco me importa.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Nove

     Sempre odiou aniversários. Sempre. Desde sua festinha de 7 anos, quando teve uma maldita intoxicação alimentar de tanto comer bolo e beber Fanta uva. Desde então, associou aniversário àquele gosto horrível de vômito na boca.
     Devemos concordar, isso já era um bom motivo para tremer cada vez que chegava setembro. Enquanto boa parte dos caras ficavam felizes em fazer um churrasco para comemorar, ele queria apenas ficar mais velho sem que isso envolvesse data especial, festas e presentes.
     Mas ela colocou na cabeça que deveria ser organizado uma festa. E nada que ele dissesse poderia mudar sua opinião.
- Sou velho demais para reunião dançante.
- E quem é que tá falando de reunião dançante? É só uma festa. A gente chama um pessoal, bebe algumas cervejas, ouve um som decente.
- Você não tá entendendo. Eu não gosto de aniversários.
- Droga, você tem que comemorar. Deixa de ser chato.
- Você tá sendo chata.
- Eu?
- É.
- Mas...
- Ah, sério, não enche.


     Por que, afinal, o ser humano tem essa mania de ser extremamente rude com quem gostam? Por que, ele agora precisava saber, foi tão idiota naquela tarde e a magoou? Não sabia. Não sabia. Não sabia.
     Até hoje ele fica louco só de pensar que tudo que ela queria era fazer uma festa para seu namorado. Só isso. Qual namorado não gostaria que sua namorada organizasse uma festa no seu aniversário? Nenhum. Apenas ele.
     Sim, ela parou de encher o saco. E também ficou dias sem falar com ele. Aliás, tão cheio de razão que ele estava, ficou dias achando que era ela que deveria procurá-lo. Afinal, ela é que tinha desrespeitado sua opinião. Quando percebeu que tinha pisado na bola, era tarde demais. A menina estava uma fera e não queria ouvir a sua voz.


     E, então, três dias antes de seu aniversário, seu amigo teve uma idéia.
- Cara, faz você uma festa.
- Ah, você só deve estar brincando comigo.
- Não, você não tá me entendendo.
- Como assim?
- Diz que vai fazer uma festa e só convida ela. Faz uma surpresa pra ela. Tipo, uma festa particular.
- Será que ela vai? Só de pensar em falar com ela, bate um medo estúpido em mim.
- Deixa comigo. Peço pra minha namorada colocar uma pilha nela.


     Uma festa só para ela? Não era uma má idéia. Ele não tinha outra opção e, por isso, conseguiu que sua mãe liberasse a casa naquela quinta-feira. Estava tudo pronto: salgadinhos, cervejas e disco do Red Hot tocando ao fundo. Tudo perfeito. Até que, às dez em ponto, toca a campainha.


- Feliz aniversário, ela disse.
     
     Ficou paralisado. Não conseguia acreditar no que estava vendo. Aquilo era bem pior que gosto de vômito na boca.


- Este é o Marcos, ela falou apontando para o cabeludo tatuado que estava com os braços sobre seu corpo.

     Sem saber o que fazer, fechou a porta na cara dos dois pombinhos. Foi um ato infantil, ele sabia. Mas naquela hora só conseguia pensar naquela festinha de 7 anos e, claro, no quanto odiava, mas odiava mesmo, aniversários.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Oito

     Ela  tomou uma xícara de café com leite, não muito quente, não muito frio. Morno, que é para não afetar o paladar. Desligou a tv e foi para o quarto. Não se atreveu a pegar o livro no criado mudo, pois não chegaria a ler mais do que uma página.
     A cama estava confortável, mais leve do que nunca. Talvez pela certeza de que ele não chegaria, não hoje.

     Ele era um homem de voz doce, mãos pesadas e respiração silenciosa.
     Ela sempre admirou a força que ele fazia para protegê-la. O jeito que fingia conhecê-la mais que, de fato, conhecia.
     Vivia atento a qualquer detalhe. Sabia exatamente o que a agradava e o que a irritava. E era com cautela que fazia uso de tais conhecimentos. Não queria deixar transparecer tanta devoção.
     Era paciente como poucos. Engolia mil palavras se fosse preciso, mesmo que seus olhos transparecessem todas elas.
     Sempre foi extremamente racional. Ao se encontrar apaixonado, fez Dela a sua razão. Calculava, minuciosamente, suas ações. Sofria, solitário, por suas falhas. Sempre tendo o cuidado de ser discreto.
     Era tão fácil com as garotas de antes. Inventava sentimentos e fazia um esforço mínimo para dizer algumas palavras bonitas, sabendo que aquilo bastava.
     Com Ela não. Tinha tudo aquilo martelando dentro de si. Não cabia mais, queria falar como nunca havia feito, agir de maneira impulsiva e excessiva.
     Mas controlava-se. Sempre achou que demonstração em excesso era inimiga de qualquer relacionamento.
     Passava horas observando-a dormir. Adorava. Dormia mais perto só para sentir seu cheiro, não enjoava nunca.
     O ontem servia para planejar o hoje. E o hoje para planejar o amanhã (com ela).
     Agora ele sabia o que 'todos' sentiam. Aquela felicidade agoniante. Um 'querer para sempre', acompanhado pelo medor de perder.
    

     Nessa noite ela sentiu-se culpada.
     Mais uma vez, feriu e desiludiu. Mais uma vez, foi egoísta.
     A busca incessante por uma vida compartilhada. O medo da solidão.
     Ignorou o coração e resolveu tentar. De repente era assim com todos, ela que queria demais.
     Se ao menos ele tivesse sido um pouco menos transparente...
     Ou talvez ela que seja muito perceptiva...
     Deu um último olhar para o teto e repetiu para si mesma:
     - O próximo será platônico. E menos perfeito... e menos perfeito.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Dez

     E ali estavam, pela última vez, os dois no mesmo lugar.
     Ela levava nos olhos as memórias do amor que nunca aconteceu. Ele estava tranquilo, leve.
     Abraçaram-se e olharam-se nos olhos. Nos dele não havia passado nem futuro. Ela deu um sorriso trêmulo. Todas suas esperanças acabaram ali, despiu-se para olhos que não enxergavam. Com olhos já cheios d'água decidiu que estava na hora de partir e deixá-lo ir embora. Pegou um papel do chão e já com certo desespero escreveu poucas palavras. Queria ir embora. Amassou o papel entre as mãos e colocou nas dele. Antes quem tivesse tempo de ler, ela deu-lhe um beijo no rosto, virou de costas e saiu andando com passos apressados. A essa altura as lágrimas já não se continham.
     Ele não pareceu tão confuso. Continuou com seu sorriso pleno e sincero de quem tem um passado muito bem resolvido.
     No papel, lia-se:

     ‘Seja feliz’

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Orkut

Sorte de hoje: Sorria. Isso basta.

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Aham, senta lá Jaqueline.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Três

     ‘Na dúvida, fale sobre o tempo’ – disse uma vez sua velha mãe.
     Primeira festa do ano. Conhecer pessoas não era exatamente o que esperava. Pouco sabia o que esperar, na verdade. Cogitou a idéia de dar meia volta e ir embora, mas pelos pedidos diversos achou ser falta de educação não aparecer para pelo menos agradecer o convite.
     Após os cumprimentos iniciais e a falta de assunto, andou de um lado para o outro, com um copo de refrigerante na mão, pensando no que dizer. No final, permaneceu calado e caminhou alguns cômodos adentro.
     Começou a aproximar-se daqueles malditos e velhos coturnos sujos. Olhava aquele o copo de álcool na mão da garota e sua desenvoltura ao conversar numa rodinha. Achou que deveria começar a beber.
     Tocava uma música bastante batida, ritmo animado, diversos dançavam naquele pequeno terraço sobre o céu limpo. Mas o jovem só pensava naqueles malditos coturnos e como eles combinariam com uma lata de cerveja daquele barzinho,  controlado pelos babacas do terceiro, lá no fundo do terraço. Enfim juntando um pouco de coragem, deu aqueles passos decisivos para o fundo do recinto.
     - Oi.
     - Você é o garoto novo da escola, não é?
     - Sou, sou eu mesmo.
     - Não sabia que tinha se mudado para cá.
     - Mudei sim, faz poucos dias.
     - Nós conversamos uma vez... no café. Você se lembra?
     - Uhum.
     - Pois é, jurava que não te encontrava mais por estas bandas. Mas este mundo é pequenino, não?
     - Uhum.
     A cena se repetia: cumprimentos iniciais, meia dúzia de palavras e ele ficou ali, andando de um lado para o outro, pensando no que dizer. No final, lembrou-se de sua velha mãe.
     - Noite do caralho.
     - Pois é, você viu como está a lua?
     - Sim, o céu está realmente muito limpo.
     - Você não bebe? – disse apontando para o copo na mão do rapaz.
     - Não sei, quero dizer...
     - Não sabe?
     - É.
     - Como assim?
     - Não sei, uai...
     E novamente aqueles garotos mais velhos mudaram para uma música pior que a anterior. E o garoto, já incomodado, se calou e abaixou a cabeça, cogitando a melhor maneira de sair daquela situação.
     - Você tem medo de mim?
     - Que?
     - Medo de mim, você tem medo de mim?.
     - O que você ta falando?
      - Medo, oras. Eu já te vi em outros lugares, sabe, conversando com outras pessoas, até piadas você conta, eu fiquei sabendo!
     - É. Mas as piadas lá... eu estudo com eles.
     - E daí, oras? Qual o motivo de me tratar diferente?
     - Ah, sei lá. Ok, você me dá um pouco de medo.
     - Por quê?
     - Sei lá, oras. Só tenho medo.
     - Eu sou estranha é isso?
     - Nada a ver.
     - Então o que, sou feia?
     - Não. Nada, orra!
     - Não vai falar?
     - Caramba, é que se os caras do terceiro gostassem de uma menina como eu gosto de você, eles também ficariam com medo.
     - ... – e saiu, caminhando até o idiota do som.
     Pronto, estraguei tudo, ele pensou. Agora ele iria embora cedo, mas de modo bem mais humilhante do que imaginava possível.
     Após certo tempo, a música parou e um ritmo mais conhecido tomou conta do ambiente. A garota dos coturnos maltrapilhos voltou, andando em direção a ele, que ficou mais uma vez sem saber o que fazer.
     Não conhecia aquela música, mas quando aquela voz estridente tomou conta do ambiente, sabia que Ozzy estava cantando. Sabia também, pela expressão no rosto e pelas duas latas de cerveja que carregava na mão, que não era mais a única pessoa que não sabia mais o que falar.
     - Noite do caralho – ela disse.
     - Pois é, você comentou da lua e só agora que vi como ela está grande, né?
     - Sim, está bonita.
     - Aham... é.
     E foi assim, com duas latas de cerveja sendo derramadas aos seus pés que ele fez a única coisa que invejava dos babacas do terceiro.
     Foi assim, numa noite do caralho, ao som de Dying for Love, com o Black Sabbath, que ele deu seu mais apaixonado beijo.

     Sua mãe é que estava certa: na dúvida, fale sobre o tempo.

Aprendizado do Dia

caralho.
por que : meio de sentenças e perguntas
por quê: finais de sentenças e perguntas
porque: respostas em meio de sentença
porquê: respostas em final de sentença
pronto.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Seis

- E se um dia eu deixar de te amar?
- Não era amor.
- Como você sabe?
- Não sei. Mas no meu mundo, não era amor. Simples assim.
- Você me ama?
- Não.
- Não???
- Não.
- ...
- Gosto de ti. Sou apaixonada. Mas não te amo.
- Você é foda...
- Não. Isto não é ruim... Eu amo o André.
- O André? Pqp, aquela bichinha!
- Viu?
- Então... você se vê sempre ao meu lado?
- Não. Você me larga antes disso.
- Por que você diz isso?
- Não sei. Mas se tivesse certeza do contrário, te largaria.
- Eu não te entendo...
- Eu larguei o André. E o Eduardo...
- ... então... então eu não posso te amar?
- Você pode pensar que me ama.
- E qual a diferença?
- Você pode ir embora. Pra sempre.
- Isso significa que você só me quer enquanto pode me perder?
- Mais ou menos... o amor é chato. Quem ama espera aceitação.
- E quem se apaixona?
- Cede.

- Vem cá...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Dois

     Desceu do ônibus de ombros contraídos. A testa levemente franzida e o olhar concentrado nos próprios pés.
     Andava para local nenhum. As garotas olhavam curiosas para o rapaz de maxilar marcado e não havia uma pessoa que não imaginasse o que e passava por aquela cabeça.
     Ela, como sempre, levava um sorriso tímido no rosto. Camisa de cor pálida e um caminhar leve. Somente os bons observadores percebiam o pingo de frustração em seus lindos olhos verdes.
     Aquela figura densa e ansiosa prendeu a atenção da garota. Não como os outros. Não. Pouco lhe importava os belos traços, o corpo robusto e o ar misterioso.
     Foi como um tapa inesperado, que a deixou perplexa e sem fala. Jamais vira tanta vida em uma pessoa. Foi algo estranho, como se tivesse encontrado a si mesma.
     Quando se deu conta, estava a segui-lo. Entraram no correio e ele tirou uma carta da mochila que não parecia cheia. Uma mochila vazia e um homem que parecia carregar o mundo nas costas.
     Ela não sabia para onde ir. Foi até lá apenas para sair de casa e sentiu-se envergonhada quando percebeu o que acabara de fazer. Nunca teve o hábito de perseguir pessoas e, mesmo que o tivesse, o seu desejo de invisibilidade não permitira qualquer aproximação.
     Comprou um envelope qualquer para não sair de mãos vazias e se dispôs a fazer o inusitado (em seu mundo): aproximou-se dele e perguntou o horário.
     Passava do meio dia e ele logo tornou a olhar para os próprios pés e caminhar.
     Um turbilhão invadiu o seu corpo. Somente ela sabia as forças que juntara e o esforço que fizera para dirigir uma palavra qualquer ao rapaz. E ele caminhava como se aquele instante não tivesse existido, e nada houvesse atrapalhado seu pensamento.
     Os passos leves teriam caminhado em direção contrária, não fosse a força que a sugava para junto dele.
     O homem parou por alguns instantes. Olhou o relógio (ato que confirmou a insignificância que ela anteriormente sentiu) e mudou de direção.
     Entraram em um café, com mesas pequenas e redondas, quase todas cheias.
     Chegou o momento de fazer-se notar. Buscou coragem sabe-se lá de onde e com a voz trêmula perguntou se ele não era fulano qualquer.
     Ele, pela primeira vez, pareceu descer ao mundo. Respondeu que não e, para surpresa da moça, prolongou a conversa.
     Sentaram na mesma mesa. Ele falava, sem olhar nos olhos, apenas falava. Ela prestava atenção a cada detalhe e não se atrevia a interromper.
     Falou sobre a dificuldade em largar seus vícios, e como algumas perdas estavam diretamente ligadas aqueles problemas. Comentou sobre a mudança de temperatura, a música que tocava e o jeito engraçado do moço atrás do balcão.
     Tinha ouvidos voltados para si mesmo. Cada palavra pronunciada por ela ativava uma área de sua memória, e ele punha-se a falar.
     Ele foi embora. Escreveu uns números em um pedaço de papel e deixou na frente dela.
     Ela, estática, olhou os números sobre a mesa e recordou brevemente o acontecido. Angustiou-se. O garoto não disse como se chamava, e não se importou em perguntá-la.
     Ficou ali por mais alguns minutos. Enxergou uma muralha. Levantou-se, amassou o papel entre os dedos e o jogou dentro da bolsa.
     Ela não ligaria. Continuou com seus passos leves e desejou não ter saído de casa naquele dia. Tinha novas dúvidas sobre si mesma.
     Segundos depois subiu no ônibus um homem de ombros relaxados e expressão calma. Desejou ter ficado mais tempo no café...

     [...abre porta, abre...]

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Motivo

Este primeiro motivo não é o de minha fissura por piadas nerds ou mulheres. Não é, tampouco, o que me move, o que me alegra ou me atormenta. Menos ainda é uma explicação para este tão estranho blog-name.

Venho aqui dizer o motivo da criação desde buraco desconhecido e, com toda certeza, pouquíssimo acessado é só um: um pedido.

Pois é, nada (desta vez) de pretensão ou intenções, apenas um pedido que foi (vagamente) feito.

E que achei que valeria a pena.

Somos movidos por motivações e vontades, não é mesmo?
Enfim, aqui estou...