sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Sete

     Sete. Sete horas para fazer o que desse na telha. Se ouve um tempo que sentiram ser um do outro, este tempo foi aquele infinito e, também, curto espaço de tempo que começava com a saída do colégio e a chegada de seus pais em casa.

     A maioria de seus colegas passava as tardes entre o físico e o cultural. Ele não. Talvez fosse preguiça ou, quem sabe, talvez seus pais não vissem motivo para investir em seu futuro, mas as tardes daquele jovem não eram feitas de exercício e idiomas. Não exatamente.

     Ele tinha discos e uma namorada. E, não sei se você sabe, uma boa coleção de discos e uma namorada é possível aprender muito bem inglês e fazer bastante exercícios em sete horas.

- O que quer dizer ‘thorn’?
- Sei lá, procura no dicionário.
- Peraí um pouquinho...

     E, assim, ela afastava seus coturnos e caminhava até a estante, tentando não escorregar com suas meias brancas ao deslizar pelo chão do quarto. Ela folheou rapidamente as folhas do dicionário e, num sorriso que só não o derrubava porque ele já estava deitado ao lado de seu aparelho de som, dizia o significado da palavra.

- Tem certeza que é espinho?
- Tá aqui no dicionário.
- Porra. O que esse cara quer dizer ‘o menino com o espinho’?
- Sei lá. Presta atenção no resto da letra.

     E assim passavam as tardes: discos, traduções e tentando entender significados desconhecidos para quem a pouco tempo brincava de Lego. Ao vê-la tão vestida e desnuda sem seus coturnos, era suficiente para seus hormônios trabalharem. Era hora dos exercícios. Beijava sua boca daquele jeito desesperado que só os apaixonados sabem beijar e, lógico, começava a exploração por baixo da camiseta. Como seus amigos que, bem provavelmente, estavam em uma piscina, ele mergulhava na idéia de tocar e descobrir cada vez mais o corpo dela.
     Mas ambos sabiam que havia um limite.

- Pára.
- Só mais um pouquinho.
- Teus pais já devem estar chegando.
- Droga.
- Não fica assim. Você sabe que vai acontecer.
- Quando?
- Não sei.
- Você nunca sabe.
- Ah, deixa de fazer manha.
- Tudo bem, vamos ouvir esse novo CD que eu comprei?

     Assim, mais uma tarde chegava ao fim. Ele levava sua garota até o ponto de ônibus e voltava para sua casa, em que sua mãe já preparava o jantar. As noites não eram o melhor momento do dia. Mas era só pensar que o amanhã estava acompanhado de uma tarde que tudo ficava bem novamente.

     Afinal, tem vezes que tudo que você precisa para ser feliz é uma boa música, uma garota de meias brancas e sete horas para aproveitar tudo isso.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Balada

     Lá estava ela, loira, linda, menina e com seu vestido de bolinhas que deixava os idiotas que passavam tontos. Ela olhou para sua direção um par de vezes. Ele ficou lá, observando aquela entidade, conjecturando diversas frases para proferir que, no final das contas, não foram ditas.


[ Maldita falta de jeito. Mas é como o jovem concluiu com seu melhor amigo: 'não somos garotos de balada'. ]

Suspiros.

Apesar disto, a festa foi do caralho.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Mudança de Paradigma

Sete. Sete horas para fazer o que desse na telha. Se ouve um tempo que senti que foi meu e que vivi como teu, este tempo foi aquele infinito e, também, curto espaço de tempo entre meu labor e as férias que agora vigoram.

As palavras simples com uma ironia aliada a uma ótima desenvoltura emocional deveriam ser aquilo: ironia e desenvoltura emocional. Tudo, tudo estava ali para tornar aquele meu infinito em um passado repleto de histórias para contar (e escrever).

Aquele tempo, no fim, não foi o melhor momento que vivi, eu sempre soube disto. Mas perceber que aquilo  poderia novamente acontecer amanhã, mês que vêm ou no 'talvez um dia' me deixava tranquilo. Percebi que viver de supostos 'melhores momentos' era errado. Agora era diferente: passado não era mais vivido para ser o melhor. Caminho hoje apenas sabendo que meus momentos poderão ser, mais uma vez, infinitos. Certo estava Vinícius e seu mais famoso soneto.

Afinal, tem vezes que tudo que você precisa para ser feliz é um bom filme, uma garota de meias brancas e sete horas para aproveitar tudo isso.

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Texto escrito em uma tarde chuvosa em belo litoral turístico. Sem revisões e, com toda certeza, com muitos erros. Pouco me importa.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Nove

     Sempre odiou aniversários. Sempre. Desde sua festinha de 7 anos, quando teve uma maldita intoxicação alimentar de tanto comer bolo e beber Fanta uva. Desde então, associou aniversário àquele gosto horrível de vômito na boca.
     Devemos concordar, isso já era um bom motivo para tremer cada vez que chegava setembro. Enquanto boa parte dos caras ficavam felizes em fazer um churrasco para comemorar, ele queria apenas ficar mais velho sem que isso envolvesse data especial, festas e presentes.
     Mas ela colocou na cabeça que deveria ser organizado uma festa. E nada que ele dissesse poderia mudar sua opinião.
- Sou velho demais para reunião dançante.
- E quem é que tá falando de reunião dançante? É só uma festa. A gente chama um pessoal, bebe algumas cervejas, ouve um som decente.
- Você não tá entendendo. Eu não gosto de aniversários.
- Droga, você tem que comemorar. Deixa de ser chato.
- Você tá sendo chata.
- Eu?
- É.
- Mas...
- Ah, sério, não enche.


     Por que, afinal, o ser humano tem essa mania de ser extremamente rude com quem gostam? Por que, ele agora precisava saber, foi tão idiota naquela tarde e a magoou? Não sabia. Não sabia. Não sabia.
     Até hoje ele fica louco só de pensar que tudo que ela queria era fazer uma festa para seu namorado. Só isso. Qual namorado não gostaria que sua namorada organizasse uma festa no seu aniversário? Nenhum. Apenas ele.
     Sim, ela parou de encher o saco. E também ficou dias sem falar com ele. Aliás, tão cheio de razão que ele estava, ficou dias achando que era ela que deveria procurá-lo. Afinal, ela é que tinha desrespeitado sua opinião. Quando percebeu que tinha pisado na bola, era tarde demais. A menina estava uma fera e não queria ouvir a sua voz.


     E, então, três dias antes de seu aniversário, seu amigo teve uma idéia.
- Cara, faz você uma festa.
- Ah, você só deve estar brincando comigo.
- Não, você não tá me entendendo.
- Como assim?
- Diz que vai fazer uma festa e só convida ela. Faz uma surpresa pra ela. Tipo, uma festa particular.
- Será que ela vai? Só de pensar em falar com ela, bate um medo estúpido em mim.
- Deixa comigo. Peço pra minha namorada colocar uma pilha nela.


     Uma festa só para ela? Não era uma má idéia. Ele não tinha outra opção e, por isso, conseguiu que sua mãe liberasse a casa naquela quinta-feira. Estava tudo pronto: salgadinhos, cervejas e disco do Red Hot tocando ao fundo. Tudo perfeito. Até que, às dez em ponto, toca a campainha.


- Feliz aniversário, ela disse.
     
     Ficou paralisado. Não conseguia acreditar no que estava vendo. Aquilo era bem pior que gosto de vômito na boca.


- Este é o Marcos, ela falou apontando para o cabeludo tatuado que estava com os braços sobre seu corpo.

     Sem saber o que fazer, fechou a porta na cara dos dois pombinhos. Foi um ato infantil, ele sabia. Mas naquela hora só conseguia pensar naquela festinha de 7 anos e, claro, no quanto odiava, mas odiava mesmo, aniversários.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Oito

     Ela  tomou uma xícara de café com leite, não muito quente, não muito frio. Morno, que é para não afetar o paladar. Desligou a tv e foi para o quarto. Não se atreveu a pegar o livro no criado mudo, pois não chegaria a ler mais do que uma página.
     A cama estava confortável, mais leve do que nunca. Talvez pela certeza de que ele não chegaria, não hoje.

     Ele era um homem de voz doce, mãos pesadas e respiração silenciosa.
     Ela sempre admirou a força que ele fazia para protegê-la. O jeito que fingia conhecê-la mais que, de fato, conhecia.
     Vivia atento a qualquer detalhe. Sabia exatamente o que a agradava e o que a irritava. E era com cautela que fazia uso de tais conhecimentos. Não queria deixar transparecer tanta devoção.
     Era paciente como poucos. Engolia mil palavras se fosse preciso, mesmo que seus olhos transparecessem todas elas.
     Sempre foi extremamente racional. Ao se encontrar apaixonado, fez Dela a sua razão. Calculava, minuciosamente, suas ações. Sofria, solitário, por suas falhas. Sempre tendo o cuidado de ser discreto.
     Era tão fácil com as garotas de antes. Inventava sentimentos e fazia um esforço mínimo para dizer algumas palavras bonitas, sabendo que aquilo bastava.
     Com Ela não. Tinha tudo aquilo martelando dentro de si. Não cabia mais, queria falar como nunca havia feito, agir de maneira impulsiva e excessiva.
     Mas controlava-se. Sempre achou que demonstração em excesso era inimiga de qualquer relacionamento.
     Passava horas observando-a dormir. Adorava. Dormia mais perto só para sentir seu cheiro, não enjoava nunca.
     O ontem servia para planejar o hoje. E o hoje para planejar o amanhã (com ela).
     Agora ele sabia o que 'todos' sentiam. Aquela felicidade agoniante. Um 'querer para sempre', acompanhado pelo medor de perder.
    

     Nessa noite ela sentiu-se culpada.
     Mais uma vez, feriu e desiludiu. Mais uma vez, foi egoísta.
     A busca incessante por uma vida compartilhada. O medo da solidão.
     Ignorou o coração e resolveu tentar. De repente era assim com todos, ela que queria demais.
     Se ao menos ele tivesse sido um pouco menos transparente...
     Ou talvez ela que seja muito perceptiva...
     Deu um último olhar para o teto e repetiu para si mesma:
     - O próximo será platônico. E menos perfeito... e menos perfeito.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Dez

     E ali estavam, pela última vez, os dois no mesmo lugar.
     Ela levava nos olhos as memórias do amor que nunca aconteceu. Ele estava tranquilo, leve.
     Abraçaram-se e olharam-se nos olhos. Nos dele não havia passado nem futuro. Ela deu um sorriso trêmulo. Todas suas esperanças acabaram ali, despiu-se para olhos que não enxergavam. Com olhos já cheios d'água decidiu que estava na hora de partir e deixá-lo ir embora. Pegou um papel do chão e já com certo desespero escreveu poucas palavras. Queria ir embora. Amassou o papel entre as mãos e colocou nas dele. Antes quem tivesse tempo de ler, ela deu-lhe um beijo no rosto, virou de costas e saiu andando com passos apressados. A essa altura as lágrimas já não se continham.
     Ele não pareceu tão confuso. Continuou com seu sorriso pleno e sincero de quem tem um passado muito bem resolvido.
     No papel, lia-se:

     ‘Seja feliz’

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Orkut

Sorte de hoje: Sorria. Isso basta.

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Aham, senta lá Jaqueline.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Três

     ‘Na dúvida, fale sobre o tempo’ – disse uma vez sua velha mãe.
     Primeira festa do ano. Conhecer pessoas não era exatamente o que esperava. Pouco sabia o que esperar, na verdade. Cogitou a idéia de dar meia volta e ir embora, mas pelos pedidos diversos achou ser falta de educação não aparecer para pelo menos agradecer o convite.
     Após os cumprimentos iniciais e a falta de assunto, andou de um lado para o outro, com um copo de refrigerante na mão, pensando no que dizer. No final, permaneceu calado e caminhou alguns cômodos adentro.
     Começou a aproximar-se daqueles malditos e velhos coturnos sujos. Olhava aquele o copo de álcool na mão da garota e sua desenvoltura ao conversar numa rodinha. Achou que deveria começar a beber.
     Tocava uma música bastante batida, ritmo animado, diversos dançavam naquele pequeno terraço sobre o céu limpo. Mas o jovem só pensava naqueles malditos coturnos e como eles combinariam com uma lata de cerveja daquele barzinho,  controlado pelos babacas do terceiro, lá no fundo do terraço. Enfim juntando um pouco de coragem, deu aqueles passos decisivos para o fundo do recinto.
     - Oi.
     - Você é o garoto novo da escola, não é?
     - Sou, sou eu mesmo.
     - Não sabia que tinha se mudado para cá.
     - Mudei sim, faz poucos dias.
     - Nós conversamos uma vez... no café. Você se lembra?
     - Uhum.
     - Pois é, jurava que não te encontrava mais por estas bandas. Mas este mundo é pequenino, não?
     - Uhum.
     A cena se repetia: cumprimentos iniciais, meia dúzia de palavras e ele ficou ali, andando de um lado para o outro, pensando no que dizer. No final, lembrou-se de sua velha mãe.
     - Noite do caralho.
     - Pois é, você viu como está a lua?
     - Sim, o céu está realmente muito limpo.
     - Você não bebe? – disse apontando para o copo na mão do rapaz.
     - Não sei, quero dizer...
     - Não sabe?
     - É.
     - Como assim?
     - Não sei, uai...
     E novamente aqueles garotos mais velhos mudaram para uma música pior que a anterior. E o garoto, já incomodado, se calou e abaixou a cabeça, cogitando a melhor maneira de sair daquela situação.
     - Você tem medo de mim?
     - Que?
     - Medo de mim, você tem medo de mim?.
     - O que você ta falando?
      - Medo, oras. Eu já te vi em outros lugares, sabe, conversando com outras pessoas, até piadas você conta, eu fiquei sabendo!
     - É. Mas as piadas lá... eu estudo com eles.
     - E daí, oras? Qual o motivo de me tratar diferente?
     - Ah, sei lá. Ok, você me dá um pouco de medo.
     - Por quê?
     - Sei lá, oras. Só tenho medo.
     - Eu sou estranha é isso?
     - Nada a ver.
     - Então o que, sou feia?
     - Não. Nada, orra!
     - Não vai falar?
     - Caramba, é que se os caras do terceiro gostassem de uma menina como eu gosto de você, eles também ficariam com medo.
     - ... – e saiu, caminhando até o idiota do som.
     Pronto, estraguei tudo, ele pensou. Agora ele iria embora cedo, mas de modo bem mais humilhante do que imaginava possível.
     Após certo tempo, a música parou e um ritmo mais conhecido tomou conta do ambiente. A garota dos coturnos maltrapilhos voltou, andando em direção a ele, que ficou mais uma vez sem saber o que fazer.
     Não conhecia aquela música, mas quando aquela voz estridente tomou conta do ambiente, sabia que Ozzy estava cantando. Sabia também, pela expressão no rosto e pelas duas latas de cerveja que carregava na mão, que não era mais a única pessoa que não sabia mais o que falar.
     - Noite do caralho – ela disse.
     - Pois é, você comentou da lua e só agora que vi como ela está grande, né?
     - Sim, está bonita.
     - Aham... é.
     E foi assim, com duas latas de cerveja sendo derramadas aos seus pés que ele fez a única coisa que invejava dos babacas do terceiro.
     Foi assim, numa noite do caralho, ao som de Dying for Love, com o Black Sabbath, que ele deu seu mais apaixonado beijo.

     Sua mãe é que estava certa: na dúvida, fale sobre o tempo.

Aprendizado do Dia

caralho.
por que : meio de sentenças e perguntas
por quê: finais de sentenças e perguntas
porque: respostas em meio de sentença
porquê: respostas em final de sentença
pronto.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Seis

- E se um dia eu deixar de te amar?
- Não era amor.
- Como você sabe?
- Não sei. Mas no meu mundo, não era amor. Simples assim.
- Você me ama?
- Não.
- Não???
- Não.
- ...
- Gosto de ti. Sou apaixonada. Mas não te amo.
- Você é foda...
- Não. Isto não é ruim... Eu amo o André.
- O André? Pqp, aquela bichinha!
- Viu?
- Então... você se vê sempre ao meu lado?
- Não. Você me larga antes disso.
- Por que você diz isso?
- Não sei. Mas se tivesse certeza do contrário, te largaria.
- Eu não te entendo...
- Eu larguei o André. E o Eduardo...
- ... então... então eu não posso te amar?
- Você pode pensar que me ama.
- E qual a diferença?
- Você pode ir embora. Pra sempre.
- Isso significa que você só me quer enquanto pode me perder?
- Mais ou menos... o amor é chato. Quem ama espera aceitação.
- E quem se apaixona?
- Cede.

- Vem cá...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Dois

     Desceu do ônibus de ombros contraídos. A testa levemente franzida e o olhar concentrado nos próprios pés.
     Andava para local nenhum. As garotas olhavam curiosas para o rapaz de maxilar marcado e não havia uma pessoa que não imaginasse o que e passava por aquela cabeça.
     Ela, como sempre, levava um sorriso tímido no rosto. Camisa de cor pálida e um caminhar leve. Somente os bons observadores percebiam o pingo de frustração em seus lindos olhos verdes.
     Aquela figura densa e ansiosa prendeu a atenção da garota. Não como os outros. Não. Pouco lhe importava os belos traços, o corpo robusto e o ar misterioso.
     Foi como um tapa inesperado, que a deixou perplexa e sem fala. Jamais vira tanta vida em uma pessoa. Foi algo estranho, como se tivesse encontrado a si mesma.
     Quando se deu conta, estava a segui-lo. Entraram no correio e ele tirou uma carta da mochila que não parecia cheia. Uma mochila vazia e um homem que parecia carregar o mundo nas costas.
     Ela não sabia para onde ir. Foi até lá apenas para sair de casa e sentiu-se envergonhada quando percebeu o que acabara de fazer. Nunca teve o hábito de perseguir pessoas e, mesmo que o tivesse, o seu desejo de invisibilidade não permitira qualquer aproximação.
     Comprou um envelope qualquer para não sair de mãos vazias e se dispôs a fazer o inusitado (em seu mundo): aproximou-se dele e perguntou o horário.
     Passava do meio dia e ele logo tornou a olhar para os próprios pés e caminhar.
     Um turbilhão invadiu o seu corpo. Somente ela sabia as forças que juntara e o esforço que fizera para dirigir uma palavra qualquer ao rapaz. E ele caminhava como se aquele instante não tivesse existido, e nada houvesse atrapalhado seu pensamento.
     Os passos leves teriam caminhado em direção contrária, não fosse a força que a sugava para junto dele.
     O homem parou por alguns instantes. Olhou o relógio (ato que confirmou a insignificância que ela anteriormente sentiu) e mudou de direção.
     Entraram em um café, com mesas pequenas e redondas, quase todas cheias.
     Chegou o momento de fazer-se notar. Buscou coragem sabe-se lá de onde e com a voz trêmula perguntou se ele não era fulano qualquer.
     Ele, pela primeira vez, pareceu descer ao mundo. Respondeu que não e, para surpresa da moça, prolongou a conversa.
     Sentaram na mesma mesa. Ele falava, sem olhar nos olhos, apenas falava. Ela prestava atenção a cada detalhe e não se atrevia a interromper.
     Falou sobre a dificuldade em largar seus vícios, e como algumas perdas estavam diretamente ligadas aqueles problemas. Comentou sobre a mudança de temperatura, a música que tocava e o jeito engraçado do moço atrás do balcão.
     Tinha ouvidos voltados para si mesmo. Cada palavra pronunciada por ela ativava uma área de sua memória, e ele punha-se a falar.
     Ele foi embora. Escreveu uns números em um pedaço de papel e deixou na frente dela.
     Ela, estática, olhou os números sobre a mesa e recordou brevemente o acontecido. Angustiou-se. O garoto não disse como se chamava, e não se importou em perguntá-la.
     Ficou ali por mais alguns minutos. Enxergou uma muralha. Levantou-se, amassou o papel entre os dedos e o jogou dentro da bolsa.
     Ela não ligaria. Continuou com seus passos leves e desejou não ter saído de casa naquele dia. Tinha novas dúvidas sobre si mesma.
     Segundos depois subiu no ônibus um homem de ombros relaxados e expressão calma. Desejou ter ficado mais tempo no café...

     [...abre porta, abre...]

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Motivo

Este primeiro motivo não é o de minha fissura por piadas nerds ou mulheres. Não é, tampouco, o que me move, o que me alegra ou me atormenta. Menos ainda é uma explicação para este tão estranho blog-name.

Venho aqui dizer o motivo da criação desde buraco desconhecido e, com toda certeza, pouquíssimo acessado é só um: um pedido.

Pois é, nada (desta vez) de pretensão ou intenções, apenas um pedido que foi (vagamente) feito.

E que achei que valeria a pena.

Somos movidos por motivações e vontades, não é mesmo?
Enfim, aqui estou...