‘Na dúvida, fale sobre o tempo’ – disse uma vez sua velha mãe.
Primeira festa do ano. Conhecer pessoas não era exatamente o que esperava. Pouco sabia o que esperar, na verdade. Cogitou a idéia de dar meia volta e ir embora, mas pelos pedidos diversos achou ser falta de educação não aparecer para pelo menos agradecer o convite.
Após os cumprimentos iniciais e a falta de assunto, andou de um lado para o outro, com um copo de refrigerante na mão, pensando no que dizer. No final, permaneceu calado e caminhou alguns cômodos adentro.
Começou a aproximar-se daqueles malditos e velhos coturnos sujos. Olhava aquele o copo de álcool na mão da garota e sua desenvoltura ao conversar numa rodinha. Achou que deveria começar a beber.
Tocava uma música bastante batida, ritmo animado, diversos dançavam naquele pequeno terraço sobre o céu limpo. Mas o jovem só pensava naqueles malditos coturnos e como eles combinariam com uma lata de cerveja daquele barzinho, controlado pelos babacas do terceiro, lá no fundo do terraço. Enfim juntando um pouco de coragem, deu aqueles passos decisivos para o fundo do recinto.
- Oi.
- Você é o garoto novo da escola, não é?
- Sou, sou eu mesmo.
- Não sabia que tinha se mudado para cá.
- Mudei sim, faz poucos dias.
- Nós conversamos uma vez... no café. Você se lembra?
- Uhum.
- Pois é, jurava que não te encontrava mais por estas bandas. Mas este mundo é pequenino, não?
- Uhum.
A cena se repetia: cumprimentos iniciais, meia dúzia de palavras e ele ficou ali, andando de um lado para o outro, pensando no que dizer. No final, lembrou-se de sua velha mãe.
- Noite do caralho.
- Pois é, você viu como está a lua?
- Sim, o céu está realmente muito limpo.
- Você não bebe? – disse apontando para o copo na mão do rapaz.
- Não sei, quero dizer...
- Não sabe?
- É.
- Como assim?
- Não sei, uai...
E novamente aqueles garotos mais velhos mudaram para uma música pior que a anterior. E o garoto, já incomodado, se calou e abaixou a cabeça, cogitando a melhor maneira de sair daquela situação.
- Você tem medo de mim?
- Que?
- Medo de mim, você tem medo de mim?.
- O que você ta falando?
- Medo, oras. Eu já te vi em outros lugares, sabe, conversando com outras pessoas, até piadas você conta, eu fiquei sabendo!
- É. Mas as piadas lá... eu estudo com eles.
- E daí, oras? Qual o motivo de me tratar diferente?
- Ah, sei lá. Ok, você me dá um pouco de medo.
- Por quê?
- Sei lá, oras. Só tenho medo.
- Eu sou estranha é isso?
- Nada a ver.
- Então o que, sou feia?
- Não. Nada, orra!
- Não vai falar?
- Caramba, é que se os caras do terceiro gostassem de uma menina como eu gosto de você, eles também ficariam com medo.
- ... – e saiu, caminhando até o idiota do som.
Pronto, estraguei tudo, ele pensou. Agora ele iria embora cedo, mas de modo bem mais humilhante do que imaginava possível.
Após certo tempo, a música parou e um ritmo mais conhecido tomou conta do ambiente. A garota dos coturnos maltrapilhos voltou, andando em direção a ele, que ficou mais uma vez sem saber o que fazer.
Não conhecia aquela música, mas quando aquela voz estridente tomou conta do ambiente, sabia que Ozzy estava cantando. Sabia também, pela expressão no rosto e pelas duas latas de cerveja que carregava na mão, que não era mais a única pessoa que não sabia mais o que falar.
- Noite do caralho – ela disse.
- Pois é, você comentou da lua e só agora que vi como ela está grande, né?
- Sim, está bonita.
- Aham... é.
E foi assim, com duas latas de cerveja sendo derramadas aos seus pés que ele fez a única coisa que invejava dos babacas do terceiro.
Foi assim, numa noite do caralho, ao som de Dying for Love, com o Black Sabbath, que ele deu seu mais apaixonado beijo.
Sua mãe é que estava certa: na dúvida, fale sobre o tempo.
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