sexta-feira, 26 de março de 2010

[Caneta Bic em um papel avulso]

"Desculpa a normalidade dos últimos dias. Mas você sabe que eu te amo e me perdoa por isso!"

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[Divagações sobre a tinta]

- Sabe, cara, amar, perdão e normalidade realmente não se mesclam com ela. Não parece ela, sabe?
- Então, é que o perdão veio de você, não dela.
- ...
- Não que ela não perdoe, só que, você sabe como ela é...
- Tá, não precisa explicar mais, acho que entendi.
- É que ela é meio impulsiva. Na verdade ela é muito diferente de você e isso...
- Eu já disse que não precisa explicar.
- Tá bom, tá bom, mas não vai fazer merda, ok?
- Fazer merda? Do que você tá falando?
- Você sabe.
- Eu acho que sei... mas é foda, cara... é foda.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Quase plágio...

A tanto falou-se de ciúmes que quase não admiti o meu. Sei que isto pesou em meu julgamento mas estava lá somente para dedicar meu tempo a você e - talvez por isto minha fúria - pensei ser merecedor de um pouco de carinho.

No final, descobre-se que não se pode cobrar este tipo de coisa e acabei descobrindo-me fútil quando a Ira dominou - descobrir que este pecado capital não passa de um canino e suas receptivas lambidas nos dedos dói e agrada.

Esperei - com uma euforia adolescente, devo admitir - uma ligação que viria com pedidos de explicações - mas o telefone está dormindo e não parece ter a intenção de reclamar agora - e pior ainda foi saber que o sushi que tanto me agrada me aguarda, mas sem a companhia da gueixa que tanto me dediquei e tentei ser merecedor de carinho.

Parabéns por me cativar, menina do caralho. Sinto - é possível que infelizmente, não sei afirmar agora - que esta presença terá a dificuldade de se apagar de minha pessoa tanto quanto esta caveira incrustada da tua pele.

sexta-feira, 19 de março de 2010

E agora já faz tanto tempo


     Tanto tempo que não vejo aqueles rostos que me fazem sorrir.
     Os olhos que transmitem coisas boas.
     Era tudo tão diferente. Tão pequeno. Tão grande.
     Pensando daquele ponto em diante, o tempo passou voando. Uma busca constante por algo que eu nem sei o que é.
     Pensando em tudo que veio antes, já faz tanto tempo... O passado, feito de lembranças: talvez da busca por alguma coisa que você já conseguiu num passado recente... talvez um completo desacerto. Um não-você.
     E hoje os dias me atropelam. Não pertenço a este lugar. Acho que nunca pertenci a lugar algum.
     Aprendi a conviver com sentimentos que não queria. Esmaguei um pouco mais do que estava aqui dentro.
     Como eu queria. Ah, como eu queria alguns vestígios reais do passado. Olhar, tocar, sentir. Que falta me faz. Ninguém mais sabe.
     Nesses momentos, nessas frações de segundos que me ponho a pensar, pego a caixinha de recordações certa de que me lembro de tudo. E tomo um susto grande quando percebo que cada vez esqueço mais. Os olhares desviam, as mãos lentamente se soltam, o sorriso enfraquece - em câmera lenta, muito lenta. Os antigos acontecimentos dão lugar aos mais recentes. A memória economiza palavras, e tudo se resume a pequenos detalhes. Os únicos detalhes.
     Só me restam as cartas, as fotos, os minúsculos bilhetes e, acima de tudo, a certeza de que tudo valeu a pena. O coração apertado não engana. É desprovido de memória, isso é verdade. Mas de maneira jamais explicada nos dá a certeza de tudo que um dia foi especial.
     E sempre será.

terça-feira, 16 de março de 2010

Teoria do Alison

"Oh, it’s so funny to be seeing you after so long, girl. 
And with the way you look 
I understand that you are not impressed."

Essas são as três primeiras frases de Alison, canção de Elvis Costelo, clássico absoluto. E é a canção que empresta som, palavras e sentimento para esse texto, ou melhor, teoria. Essas frases já são uma pista mas o que vem a ser a Teoria de Alison? Bem, a teoria de Alison é uma equação muito simples:

{É só juntar um cara legal, uma garota bacana, platonismo à vontade, alguns itens da Lei de Murphy, e, às vezes, um relacionamento quase perfeito acontece. Quase perfeito. Aí é só bater no liqüidificador e beber o resto da vida entre silêncios e sonhos}

Alisons são aquelas garotas que marcam a vida da gente e que a gente não consegue esquecer com o tempo, ao contrário, elas nos tomam cada vez mais, como se só existissem elas no mundo. Sei que não existem apenas elas, mas isso é inexplicável, acontece. E acontece a ponto de as tornarem as maiores adversárias de novos relacionamentos, embora nem estejam mais ali, talvez apenas como fantasmas, mas nós acabamos sempre as querendo. É diferente de flertes corriqueiros e inconseqüentes e é sacrifício até manter a amizade depois que a história chega ao fim, ou melhor, quase início.

Ela pode ser qualquer garota, como a vizinha, uma colega de classe, a amiga de um conhecido, a irmã de uma amiga, a namorada do melhor amigo, uma prima, qualquer uma. Parece piada, mas acredite, não é. Acontece. Quem tem uma Alison tem também uma porção de histórias tragicômicas para contar. Eu mesmo tenho um monte e daria para escrever um livro só contando minhas mancadas.

Cada um deve ter a sua Alison. Eu tenho a minha, bonita, inteligente, frases iniciadas por um e finalizada por outro, quase beijos, e por fim, silêncios. Tá, ela me envia emails vez em quando. Mas já não está sozinha, o que a torna ainda mais impossível. Mas é a minha Alison, vou fazer o que? Não escolhi. Ela me apareceu do nada, numa tarde de julho a quase 800 km da  minha casa (acho que fui eu que apareci) e, bem, ela vai se casar em setembro e eu não quero ser muito sentimental (como canta Costelo) mas a vida segue, cada um na sua, e geralmente Alisons nos trazem tristeza. É a sina. Eu só sei que ela não é minha.

Isso é o fim ? Não, como eu disse, a vida segue. Apenas segue mais arrastada. Isso tudo não impede da gente encontrar alguém e se apaixonar e tal. Eu já me apaixonei mas não foi lá grande coisa, nem por culpa da paixão mas por culpa da Alison. Mesmo assim acredito que a minha garota está andando por aí e qualquer dia eu a encontro. Acredito. Mas Alison é 
Alison, a gente bebe a vida inteira dessa chuva. E desde então parece que tem chovido sempre. Sempre.  
 
"Alison, my aim is true. My aim is true."

Por  Miguel F. Luna.
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Masoquismo emocional, eu sei. Mas esta teoria me marcou.

domingo, 7 de março de 2010

Antiga Sinceridade

"Também não vou desejar 'que de tudo certo', porque não vai ser assim, você sabe que vão haver dificuldades e o que você deve fazer é vencer, lutar e aprender com essa bela oportunidade que você terá. Aqui que estou sendo 'conselheiro' demais, queria realmente falar que tudo vai dar certo e tal, mas sabe como eu sou, né?"

Sinceridade, é foda.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Treze

     O fundo da sala-de-aula era território dele. Não que fosse um aluno arruaceiro ou coisa parecida. Mas sempre preferiu sentar nas últimas cadeiras porque era lá que estavam as pessoas que ele considerava divertidas, além de ser um ótimo lugar para ficar rabiscando formações imaginárias de uma banda perfeita sem que o professor viesse encher o saco. Mas aquele dia não conseguia se concentrar, não quando aquele cheiro de sabonete de bebê apareceu ao lado e puxou conversa.

- Por que esta cara de assustado?, ela perguntou.

     Era verdade: ele estava assustado. Afinal, desde que eram colegas ela nunca havia sentado lá no fundão.

- É que to acostumado a olhar pro lado e ver a cara de um amigo.
- E o que é melhor? Ver a cara de um garoto ou a minha?
- É que é estranho...
- Você não respondeu minha pergunta.

     Ficou alguns segundos rabiscando numa folha de papel, sem saber o que dizer. Sentia aquele frio na barriga, daqueles que não tem mais volta. Mas, neste caso, a sensação era 99% boa, ele achava.  Afinal de contas, não fora ele que havia tomado a iniciativa. Pela primeira vez na vida, poderia dizer que uma menina tinha dado em cima dele.
Só que, óbvio, sempre havia aquele maldito medo estúpido. E, lógico, por causa dele, estar com um friozinho na barriga por Maria Fernanda não era 100% legal.

- Você não respondeu minha pergunta, ela repetiu.
- Só ia falar que é estranho ver você aqui no fundo da sala.
- E...
- E respondendo sua pergunta, é estranho, mas é muito melhor ver você aqui do que qualquer pessoa. Principalmente o metaleiro do meu amigo.
- Tadinho dele... Vocês parecem ser tão amigos...
- E somos agora. Quero dizer, há uns dois meses que a gente tem se falado mais.
- Nunca falei com ele.
- Ué, você nunca tinha falado comigo.
- Mas você também nunca falou comigo.
- É que...
- É que a turma do fundão não se mistura com o pessoal que fica grudado no quadro-negro, né?
- Não era isso que queria dizer.
- Mas você acha isso.
- Você também acha isso, Maria.
- Maria? Se eu acho mesmo que a gente não deve se misturar, o que é que tô fazendo aqui?

     Pela segunda vez naquela manhã, ela havia deixado o garoto sem palavras. Ele ficou olhando para aqueles cinco nomes na última folha do meu caderno. Eram cinco caras, integrantes de cinco de suas bandas prediletas, cinco músicos que provavelmente nunca iriam tocar juntos. Eles se misturarem parecia tão improvável quanto ele e ela se misturarem, mas, em ambos os casos, só de imaginar uma possibilidade já fazia o jovem sorrir.
    
     Mas antes que ele pudesse tomar atitude, o celular da garota tocou e uma Bossa Nova começou a tocar na sala. Desesperada e tentando tirar o celular de cima da mesa, aquele telefone voou das mãos dela e caiu no chão.
     Ainda atônito com tudo que estava acontecendo, ele ficou a observar aquele celular novinho rodopiar por sua mesa e na de Maria Fernanda. Quando percebeu, ela estava ajoelhada no chão, com o celular nas mãos e seus olhos fixos nos meus. Não sabe exatamente o que aconteceu com ele, mas, num impulso, jogou seu corpo sobre o dela e, enquanto toda sala-de-aula ouvia Caetano Veloso cantando Garota de Ipanema e tentava entender de onde via aquele barulho de cadeiras, ele a beijou.

- Vamos nos misturar, ele falou ao seu ouvido.
- Nós vamos é ser expulsos de sala, ela disse.

     E foram. Sobre gritos e aplausos de toda turma, saíram de mãos dadas da sala de aula. E, quando fecharam a porta, sorriram um para o outro com aquela certeza de que já não existia território dele que não fosse dela e vice-versa.