domingo, 17 de janeiro de 2010

Nove

     Sempre odiou aniversários. Sempre. Desde sua festinha de 7 anos, quando teve uma maldita intoxicação alimentar de tanto comer bolo e beber Fanta uva. Desde então, associou aniversário àquele gosto horrível de vômito na boca.
     Devemos concordar, isso já era um bom motivo para tremer cada vez que chegava setembro. Enquanto boa parte dos caras ficavam felizes em fazer um churrasco para comemorar, ele queria apenas ficar mais velho sem que isso envolvesse data especial, festas e presentes.
     Mas ela colocou na cabeça que deveria ser organizado uma festa. E nada que ele dissesse poderia mudar sua opinião.
- Sou velho demais para reunião dançante.
- E quem é que tá falando de reunião dançante? É só uma festa. A gente chama um pessoal, bebe algumas cervejas, ouve um som decente.
- Você não tá entendendo. Eu não gosto de aniversários.
- Droga, você tem que comemorar. Deixa de ser chato.
- Você tá sendo chata.
- Eu?
- É.
- Mas...
- Ah, sério, não enche.


     Por que, afinal, o ser humano tem essa mania de ser extremamente rude com quem gostam? Por que, ele agora precisava saber, foi tão idiota naquela tarde e a magoou? Não sabia. Não sabia. Não sabia.
     Até hoje ele fica louco só de pensar que tudo que ela queria era fazer uma festa para seu namorado. Só isso. Qual namorado não gostaria que sua namorada organizasse uma festa no seu aniversário? Nenhum. Apenas ele.
     Sim, ela parou de encher o saco. E também ficou dias sem falar com ele. Aliás, tão cheio de razão que ele estava, ficou dias achando que era ela que deveria procurá-lo. Afinal, ela é que tinha desrespeitado sua opinião. Quando percebeu que tinha pisado na bola, era tarde demais. A menina estava uma fera e não queria ouvir a sua voz.


     E, então, três dias antes de seu aniversário, seu amigo teve uma idéia.
- Cara, faz você uma festa.
- Ah, você só deve estar brincando comigo.
- Não, você não tá me entendendo.
- Como assim?
- Diz que vai fazer uma festa e só convida ela. Faz uma surpresa pra ela. Tipo, uma festa particular.
- Será que ela vai? Só de pensar em falar com ela, bate um medo estúpido em mim.
- Deixa comigo. Peço pra minha namorada colocar uma pilha nela.


     Uma festa só para ela? Não era uma má idéia. Ele não tinha outra opção e, por isso, conseguiu que sua mãe liberasse a casa naquela quinta-feira. Estava tudo pronto: salgadinhos, cervejas e disco do Red Hot tocando ao fundo. Tudo perfeito. Até que, às dez em ponto, toca a campainha.


- Feliz aniversário, ela disse.
     
     Ficou paralisado. Não conseguia acreditar no que estava vendo. Aquilo era bem pior que gosto de vômito na boca.


- Este é o Marcos, ela falou apontando para o cabeludo tatuado que estava com os braços sobre seu corpo.

     Sem saber o que fazer, fechou a porta na cara dos dois pombinhos. Foi um ato infantil, ele sabia. Mas naquela hora só conseguia pensar naquela festinha de 7 anos e, claro, no quanto odiava, mas odiava mesmo, aniversários.

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