segunda-feira, 1 de março de 2010

Treze

     O fundo da sala-de-aula era território dele. Não que fosse um aluno arruaceiro ou coisa parecida. Mas sempre preferiu sentar nas últimas cadeiras porque era lá que estavam as pessoas que ele considerava divertidas, além de ser um ótimo lugar para ficar rabiscando formações imaginárias de uma banda perfeita sem que o professor viesse encher o saco. Mas aquele dia não conseguia se concentrar, não quando aquele cheiro de sabonete de bebê apareceu ao lado e puxou conversa.

- Por que esta cara de assustado?, ela perguntou.

     Era verdade: ele estava assustado. Afinal, desde que eram colegas ela nunca havia sentado lá no fundão.

- É que to acostumado a olhar pro lado e ver a cara de um amigo.
- E o que é melhor? Ver a cara de um garoto ou a minha?
- É que é estranho...
- Você não respondeu minha pergunta.

     Ficou alguns segundos rabiscando numa folha de papel, sem saber o que dizer. Sentia aquele frio na barriga, daqueles que não tem mais volta. Mas, neste caso, a sensação era 99% boa, ele achava.  Afinal de contas, não fora ele que havia tomado a iniciativa. Pela primeira vez na vida, poderia dizer que uma menina tinha dado em cima dele.
Só que, óbvio, sempre havia aquele maldito medo estúpido. E, lógico, por causa dele, estar com um friozinho na barriga por Maria Fernanda não era 100% legal.

- Você não respondeu minha pergunta, ela repetiu.
- Só ia falar que é estranho ver você aqui no fundo da sala.
- E...
- E respondendo sua pergunta, é estranho, mas é muito melhor ver você aqui do que qualquer pessoa. Principalmente o metaleiro do meu amigo.
- Tadinho dele... Vocês parecem ser tão amigos...
- E somos agora. Quero dizer, há uns dois meses que a gente tem se falado mais.
- Nunca falei com ele.
- Ué, você nunca tinha falado comigo.
- Mas você também nunca falou comigo.
- É que...
- É que a turma do fundão não se mistura com o pessoal que fica grudado no quadro-negro, né?
- Não era isso que queria dizer.
- Mas você acha isso.
- Você também acha isso, Maria.
- Maria? Se eu acho mesmo que a gente não deve se misturar, o que é que tô fazendo aqui?

     Pela segunda vez naquela manhã, ela havia deixado o garoto sem palavras. Ele ficou olhando para aqueles cinco nomes na última folha do meu caderno. Eram cinco caras, integrantes de cinco de suas bandas prediletas, cinco músicos que provavelmente nunca iriam tocar juntos. Eles se misturarem parecia tão improvável quanto ele e ela se misturarem, mas, em ambos os casos, só de imaginar uma possibilidade já fazia o jovem sorrir.
    
     Mas antes que ele pudesse tomar atitude, o celular da garota tocou e uma Bossa Nova começou a tocar na sala. Desesperada e tentando tirar o celular de cima da mesa, aquele telefone voou das mãos dela e caiu no chão.
     Ainda atônito com tudo que estava acontecendo, ele ficou a observar aquele celular novinho rodopiar por sua mesa e na de Maria Fernanda. Quando percebeu, ela estava ajoelhada no chão, com o celular nas mãos e seus olhos fixos nos meus. Não sabe exatamente o que aconteceu com ele, mas, num impulso, jogou seu corpo sobre o dela e, enquanto toda sala-de-aula ouvia Caetano Veloso cantando Garota de Ipanema e tentava entender de onde via aquele barulho de cadeiras, ele a beijou.

- Vamos nos misturar, ele falou ao seu ouvido.
- Nós vamos é ser expulsos de sala, ela disse.

     E foram. Sobre gritos e aplausos de toda turma, saíram de mãos dadas da sala de aula. E, quando fecharam a porta, sorriram um para o outro com aquela certeza de que já não existia território dele que não fosse dela e vice-versa.

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