sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Onze

     Não havia nada pior: além de perder a namorada, ele era chamado de corno. Tentou de todas as formas esconder que ela havia aparecido com outro na sua festa de aniversário, mas você sabe como é o colégio. Logo, este era o assunto de todas as conversas nos corredores, na biblioteca, no bar, nos bilhetes na sala de aula. Definitivamente, ele era o corno do ano.

     Durante duas semanas, não teve vontade de fazer nada. Passava boa parte do tempo matando aula no terraço do colégio, fodendo com suas notas e seus pulmões. Foram naquelas duas semanas, ele desconfiou depois, que começou a ficar viciado para valer em cigarros.

     Talvez fosse o excesso de Legião no walkman, mas tinha certeza que nunca nenhum homem havia sofrido tanto por uma mulher como ele por ela.

     Por causa daquele egocentrismo típico dos jovens, acreditou que ninguém jamais sofreria como ele. E então, na terceira quarta-feira, e segunda aula de literatura que matou, ouviu alguém se aproximar do terraço.

     Pensou que fosse seu amigo, única pessoa que realmente conhecia seu esconderijo, mas sentiu um perfume de sabonete de bebê. E definitivamente seu amigo não fazia o tipo de quem usava sabonete de bebê.

- Poxa, você tá mal mesmo - ouviu uma voz conhecida falar.

     Sentado no cimento frio, o garoto levantou a cabeça e olhou para cima. Era uma colega de aula. Ficou surpreso por alguns segundos. Ele e Maria Fernanda eram de grupos diferentes. Ele mal lembrava se este era realmente o nome dela. Mas lembrava que enquanto ele fazia o estilo roqueiro, ela era toda certinha e andava com os playboys fãs de raves.

- Oi, Maria - disse sem se importar se este era seu nome.
- Engraçado, ninguém me chama de Maria.
- Hum... sei.
- Posso sentar?
- Hã? Sentar? Pode, claro.

     Ela jogou um livro no chão e sentou sobre ele. Provavelmente para não sujar seus jeans de grife.

- Tá surpreso de me ver aqui, né?
- Não. Quero dizer, não sei. Talvez.
- Eu também tô.
- Tá o quê?
- Surpresa.
- Ah, tá.
- Tudo bem de eu ficar aqui com você?
- Você tá matando aula de literatura.
- Não tem problema. Acho que não vai ter nada de tão importante assim. Além do mais, já tô de saco cheio de Machado de Assis.
- Machado de Assis é o maior escritor brasileiro.
- Pode ser. Mas eu acho que a gente é muito jovem e imaturo pra ler o cara.
- É. Talvez você tenha razão.

     Ele não poderia acreditar. Eles estavam conversando. Maria e ele eram colegas de aula desde a terceira série e, desde então, haviam trocado no máximo vinte palavras.

- Mas não vim pra falar de literatura.
- Não?
- Vim falar com você…
- Comigo?
- Sim. É que…
- Quer um cigarro?
- Não fumo.
- Importa se eu fumar?
- Mais ou menos… Mas se quiser, tudo bem.
- Valeu. Prometo que não jogo fumaça pro seu lado.
- Obrigada.
- Então… Você veio falar comigo?
- Vim. É que, hã, tava pensando em tudo que aconteceu com você. Já ouvi todas as versões: que você mereceu, que ela foi filha da puta, que você só tá se fazendo de deprimido. Ouvi tudo isso e nada me importa. Não quero fazer julgamentos, nem nada. Só acho que este é um bom momento pra dizer o que sinto.
- E o que você sente?
- Você não sabe, mas desde a quinta série passo boa parte do meu tempo…
- Continua…
- Olha, foi difícil vir até aqui. Tive que juntar toda coragem que tenho e que não tenho. Por isso, você não vai poder me apressar, ok?
- Ok. Desculpa Maria.
- Tudo bem, mas me chame de Fernanda, ok? Vamos lá: passei boa parte do meu tempo pensando em você.
- Em mim?
- É, em você. Desde a quinta série, quando você se ofereceu pra me levar de ônibus até minha casa porque meu pai não podia me buscar, desde aquele dia constrangedor, não paro de pensar em você.
- Putz. Tinha me esquecido disso. Você nunca tinha andado de ônibus sozinha e tava morrendo de medo! Que absurdo!
- Sei que era um absurdo, que eu era uma filhinha de papai medrosa, mas aquilo foi lindo. A gente não falou nada no caminho inteiro e, mesmo assim, só consegui pensar em você. Sei que nós somos diferentes, sei que você me acha uma mimada sem graça, mas não posso te ver assim arrasado, perdendo as aulas…

     Estava pasmo com tudo aquilo. Mas ainda se achava o maior sofredor de todos os tempos.

- Não sei o que você tá querendo dizer, Fernanda. Só sei que não posso fazer nada. Tô assim fodido e pronto. Fui um namorado insensível, mereci aqueles chifres. É isso. Sou corno. E não há nada pior do que isso. Ser corno e saber que mereço ser chamado assim.
- Claro que há coisa pior.
- O quê por exemplo?
- Ser apaixonada por alguém e não ter coragem de dizer. Ser apaixonada por alguém que te acha fútil.
- Você fala assim porque nunca viu alguém que você gosta com outro.
- Vi sim.
- Quem?
- Você, seu estúpido.
- Mas não sou seu namorado.
- Eu correria o risco de ser traída se você quisesse ficar comigo.

     Ela disse e depois, com uma rapidez de quem era campeã de handball no colégio, pegou seu livro e desapareceu do terraço.
  
     Ficou um bom tempo ali, olhando para onde Maria Fernanda estava sentada, sem saber o que fazer. De repente, deu um frio na barriga e começou a sentir um medo, o mesmo e velho medo estúpido que tanto conhecia, aquele medo de sempre, o medo de estar novamente se apaixonando e não saber o que fazer com isso.

     E, quando percebeu, já havia descido para a sala de aula. No meio do caminho, ouviu algumas pessoas chamando-o de corno. Não deu a mínima. Afinal de contas, ele já sabia: sim, havia coisa pior no mundo.

Um comentário:

  1. Impressionante e... que nome devo dar pro frio na barriga mesmo? Ah sim, apaixonante!

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